Pular para o conteúdo
Jornada 52 Semanas

38/52 - Sue Johnson

Descubra com Sue Johnson como segurança emocional, vulnerabilidade e apego ajudam a construir relacionamentos mais íntimos e confiáveis.

Andrea Maciel10 min de leitura

Apego, Vulnerabilidade e Segurança Emocional

Intimidade não é apenas estar perto.

É sentir que podemos estar perto sem precisar permanecer emocionalmente protegidos o tempo inteiro.

É poder revelar medo sem ser ridicularizado.

Expressar necessidade sem ser diminuído.

Mostrar fragilidade sem temer que aquilo seja usado contra nós depois.

E confiar que, nos momentos em que a vida nos desorganiza, existe alguém emocionalmente acessível ao nosso lado.

Foi justamente essa dimensão dos vínculos humanos que marcou o trabalho da psicóloga Sue Johnson, uma das principais referências contemporâneas no estudo do apego aplicado aos relacionamentos amorosos.

Criadora da Terapia Focada nas Emoções para Casais, conhecida internacionalmente como EFT, Johnson ajudou a transformar a maneira como compreendemos os conflitos conjugais.

Seu trabalho revelou que, por trás de muitas discussões aparentemente banais, pode existir uma pergunta muito mais profunda:

“Posso contar com você quando realmente precisar?”

Quem Foi Sue Johnson

Susan M. Johnson, conhecida como Sue Johnson, nasceu em 1947, na Inglaterra, e posteriormente construiu sua trajetória acadêmica e profissional no Canadá.

Formou-se na área de psicologia e aprofundou seus estudos em psicologia clínica, tornando-se pesquisadora, professora, terapeuta e uma das grandes responsáveis por aproximar a teoria do apego da prática clínica com casais.

Sua trajetória profissional ganhou uma direção decisiva quando começou a trabalhar com casais em sofrimento.

Naquele período, muitas abordagens terapêuticas concentravam-se fortemente em ensinar técnicas de comunicação, negociação e resolução de problemas.

Mas Johnson começou a perceber algo.

Muitas vezes, o casal sabia perfeitamente qual era o problema.

Sabia até como deveria conversar.

Mesmo assim, quando uma situação emocionalmente sensível aparecia, os mesmos padrões retornavam.

Um atacava.

O outro se fechava.

Um cobrava.

O outro se afastava.

Quanto mais um tentava se aproximar, mais o outro parecia recuar.

E quanto mais o outro recuava, mais intensa se tornava a tentativa de aproximação.

Johnson começou então a investigar aquilo que existia por baixo do conflito visível.

E encontrou no trabalho do psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, criador da teoria do apego, uma estrutura poderosa para compreender o que observava.

O Apego Não Termina na Infância

Durante muito tempo, a teoria do apego esteve fortemente associada à relação entre crianças e seus cuidadores.

Bowlby havia demonstrado a importância dos vínculos seguros para o desenvolvimento humano.

Sue Johnson ajudou a levar essa compreensão para a vida adulta e, especialmente, para o relacionamento amoroso.

Adultos também procuram segurança emocional.

Também precisam saber se pessoas importantes estarão disponíveis quando necessário.

Também reagem quando percebem ameaça de abandono, rejeição ou desconexão.

Isso significa que algumas reações que parecem exageradas quando observadas apenas na superfície podem adquirir outro significado quando compreendemos o vínculo.

Uma discussão pode parecer ser sobre mensagens não respondidas.

Sobre horário.

Sobre dinheiro.

Sobre tarefas domésticas.

Sobre sexo.

Sobre atenção.

Mas, em determinados momentos, existe uma pergunta emocional acontecendo por baixo de tudo isso:

“Eu ainda sou importante para você?”

“Você está comigo?”

“Posso confiar em você?”

“Quando eu estiver vulnerável, você permanecerá aqui?”

Quando essas perguntas não encontram segurança, o sistema de apego pode entrar em alerta.

E o comportamento muda.

O Ciclo Negativo

Uma das grandes contribuições da abordagem desenvolvida por Sue Johnson é compreender que, frequentemente, o verdadeiro adversário não é a pessoa que está diante de nós.

É o ciclo negativo que o casal construiu.

Imagine uma pessoa que percebe distância emocional.

Ela sente medo de perder conexão.

Mas, em vez de dizer:

“Estou com medo de que estejamos nos afastando.”

ela critica:

“Você nunca está presente.”

A outra pessoa recebe aquilo como ataque.

Sente que nunca consegue fazer o suficiente.

Então se fecha.

Evita a conversa.

Afasta-se.

Mas esse afastamento confirma justamente o medo da primeira pessoa.

Ela aumenta a cobrança.

A outra aumenta a distância.

E o ciclo se fortalece.

Quanto mais uma persegue, mais a outra recua.

Quanto mais uma recua, mais a outra persegue.

Depois de algum tempo, ambas podem acreditar que o problema é o caráter do outro.

Mas Johnson mostrou que existe enorme valor em ajudar o casal a enxergar o padrão que se instalou entre eles.

A pergunta muda.

Em vez de:

“Qual de nós é o problema?”

passamos a perguntar:

“Qual é o ciclo que está nos aprisionando?”

Por Trás da Raiva Pode Existir Medo

Quando estamos emocionalmente ameaçados, nem sempre mostramos aquilo que realmente sentimos.

Medo pode aparecer como raiva.

Tristeza pode aparecer como irritação.

Necessidade de proximidade pode aparecer como cobrança.

Sensação de inadequação pode aparecer como afastamento.

Uma pessoa diz:

“Você não se importa comigo.”

Mas talvez, embaixo dessa acusação, exista:

“Tenho medo de não ser importante para você.”

A outra responde:

“Nada do que faço está bom.”

Mas talvez exista:

“Tenho medo de nunca conseguir ser suficiente para você.”

Quando o casal permanece apenas na superfície, essas duas pessoas brigam.

Quando conseguem acessar a vulnerabilidade que existe por baixo da reação, surge outra possibilidade.

Porque é muito diferente responder a uma acusação e responder a um medo.

A acusação desperta defesa.

A vulnerabilidade pode despertar aproximação.

Vulnerabilidade Não É Fraqueza

Dentro de um relacionamento amoroso, vulnerabilidade não significa contar tudo o tempo inteiro.

Nem significa perder limites.

Muito menos aceitar comportamentos que ferem dignidade, respeito ou segurança.

Vulnerabilidade significa permitir que a pessoa com quem construímos intimidade tenha acesso àquilo que realmente está acontecendo dentro de nós.

É conseguir dizer:

“Isso me assustou.”

“Eu senti sua falta.”

“Tenho medo de perder nossa conexão.”

“Eu preciso sentir que posso contar com você.”

Isso exige coragem.

Porque atacar pode ser emocionalmente mais fácil do que revelar necessidade.

É mais fácil dizer:

“Você não liga para mim.”

do que admitir:

“Eu preciso sentir que sou importante para você.”

É mais fácil acusar:

“Você nunca conversa.”

do que revelar:

“Tenho sentido falta de nós.”

A vulnerabilidade retira parte da armadura.

E justamente por isso ela depende de algo fundamental:

segurança emocional.

Segurança Emocional: “Você Está Aqui Para Mim?”

No centro do trabalho de Sue Johnson existe uma ideia essencial: relacionamentos amorosos seguros dependem da percepção de que a pessoa importante está emocionalmente acessível e responsiva.

Não significa disponibilidade absoluta.

Nenhum ser humano consegue estar presente o tempo inteiro.

Significa construir repetidamente a experiência de que, quando algo realmente importa, existe possibilidade de conexão.

Posso procurar você?

Você me responde?

Minha experiência importa para você?

Existe espaço para mim aqui?

Sue Johnson sintetizou essa dinâmica em torno de três qualidades frequentemente expressas como acessibilidade, responsividade e engajamento emocional.

A segurança cresce quando percebemos que podemos alcançar o outro, receber uma resposta emocional e sentir sua presença na relação.

São experiências aparentemente pequenas.

Olhar quando o outro fala.

Perceber mudança no estado emocional.

Perguntar o que aconteceu.

Responder a uma tentativa de aproximação.

Reconhecer uma dor.

Reparar depois de um conflito.

Permanecer presente em uma conversa desconfortável.

Esses momentos ajudam a construir confiança.

Intimidade Precisa de Segurança

Não existe intimidade profunda onde existe medo constante de exposição.

Se toda vulnerabilidade pode virar argumento na próxima discussão, aprendemos a esconder.

Se toda necessidade é tratada como fraqueza, aprendemos a não pedir.

Se todo erro produz humilhação, aprendemos a nos defender.

Se toda discordância ameaça o vínculo, aprendemos a evitar assuntos importantes.

A relação pode continuar funcionando externamente.

Mas emocionalmente começa a perder profundidade.

É por isso que segurança e intimidade estão profundamente ligadas.

Quanto mais seguro é o vínculo, maior pode ser a liberdade para dizer:

“Essa sou eu neste momento.”

Sem precisar apresentar apenas uma versão forte, controlada e impecável de si.

Respeito Protege a Vulnerabilidade

Aqui encontramos o segundo elemento do nosso tema.

Respeito.

Intimidade oferece acesso.

Respeito determina o que fazemos com esse acesso.

Quando alguém nos revela uma insegurança, recebemos algo precioso.

Quando conhecemos uma ferida, adquirimos também a capacidade de tocá-la.

Quando sabemos o que assusta alguém, sabemos exatamente onde poderíamos machucar.

É por isso que intimidade sem respeito pode se tornar perigosa.

Respeitar significa não utilizar a vulnerabilidade recebida como arma.

Não humilhar.

Não ridicularizar necessidades.

Não expor aquilo que foi confiado em intimidade.

Não diminuir o sentimento do outro apenas porque você não o experimentaria da mesma maneira.

O respeito transforma conhecimento emocional em responsabilidade.

Confiança É Construída na Experiência

Confiança não nasce apenas de promessas.

Ela é construída pela repetição de experiências.

Eu disse algo difícil e você permaneceu.

Eu estava vulnerável e você não me humilhou.

Nós brigamos e conseguimos reparar.

Eu precisei de você e encontrei resposta.

Você errou e assumiu responsabilidade.

Eu errei e encontrei espaço para reconstruir.

Pouco a pouco, essas experiências formam uma mensagem interna:

“Este vínculo é seguro.”

Da mesma maneira, confiança também pode ser enfraquecida pela repetição.

Promessas quebradas.

Indiferença.

Desprezo.

Mentiras.

Ausência emocional.

Vulnerabilidades usadas como armas.

Rupturas que nunca são reparadas.

Por isso, confiança não é apenas uma ideia que temos sobre alguém.

É uma experiência construída no relacionamento.

O Amor Também Precisa de Reparação

Nenhum casal responderá perfeitamente às necessidades um do outro.

Haverá momentos de desconexão.

Palavras inadequadas.

Silêncios.

Falhas.

Interpretações equivocadas.

A segurança emocional não depende de nunca existir ruptura.

Depende também da capacidade de reparar.

Reconhecer:

“Eu percebi que me afastei quando você precisava de mim.”

Ou:

“Aquilo que eu disse te machucou. Quero assumir minha responsabilidade.”

Ou ainda:

“Eu estava me defendendo e não consegui ouvir o que você realmente estava tentando me dizer.”

Reparar é retornar ao vínculo.

É mostrar que um momento difícil não precisa definir toda a relação.

É reconstruir confiança depois da desconexão.

Conexão com o Tema

O tema desta semana é:

Intimidade, Respeito e Confiança: O Tripé da Aliança.

E o trabalho de Sue Johnson nos ajuda a perceber como esses três elementos estão profundamente conectados.

Intimidade permite que eu me revele.

Respeito faz com que aquilo que revelei seja tratado com dignidade.

Confiança cresce quando essa experiência se repete ao longo do tempo.

Sem intimidade, podemos permanecer emocionalmente distantes.

Sem respeito, a proximidade pode se tornar insegura.

Sem confiança, começamos a nos proteger justamente da pessoa com quem deveríamos poder baixar parte de nossas defesas.

Uma aliança amorosa madura precisa, portanto, tornar-se um lugar em que duas pessoas possam gradualmente experimentar algo essencial:

“Eu posso ser conhecida aqui sem precisar viver permanentemente me defendendo.”

Isso não elimina limites.

Não elimina responsabilidade individual.

Não significa tolerar violência, abuso, manipulação ou desrespeito.

Significa compreender que, dentro de uma relação saudável, proximidade emocional e segurança precisam caminhar juntas.

Encerramento

Sue Johnson nos ajuda a enxergar o conflito por uma perspectiva diferente.

Nem toda cobrança é apenas cobrança.

Às vezes existe medo por trás dela.

Nem todo afastamento significa indiferença.

Às vezes existe proteção.

Nem toda raiva revela aquilo que realmente está acontecendo.

Às vezes existe uma necessidade de conexão que ainda não encontrou coragem para se mostrar.

Compreender isso não significa justificar comportamentos inadequados.

Significa aprender a olhar mais profundamente.

Porque relacionamentos amorosos não se fortalecem apenas quando duas pessoas aprendem a resolver problemas.

Eles se fortalecem quando duas pessoas aprendem, pouco a pouco, a se tornar emocionalmente mais seguras uma para a outra.

E talvez uma das perguntas mais importantes dentro de uma relação seja justamente aquela que atravessa o trabalho de Sue Johnson:

quando a pessoa que você ama está vulnerável, ela encontra em você um lugar onde pode se aproximar — ou um lugar do qual precisa se proteger?

—-

🎧 Quer aprofundar esta modelagem?

No vídeo completo, vamos conhecer melhor a trajetória de Sue Johnson e aprofundar seus ensinamentos sobre apego, vulnerabilidade, ciclos de conflito e segurança emocional, compreendendo como esses princípios podem fortalecer intimidade, respeito e confiança no relacionamento amoroso.

Ouça à modelagem completa no YouTube e continue aprofundando esta jornada.

XLinkedInWhatsAppE-mail

Quem escreveu

Andrea Maciel

Todos os textos

Nesta série

Comentários

Seu e-mail fica com Jornada 52 Semanas para moderar e responder. O comentário aparece depois de aprovado.